Romper os embargos dos EUA é
necessário para a Paz.
Romper os embargos dos EUA é
necessário para a Paz é um ponto central e extremamente relevante para se
pensar uma alternativa real ao atual estado de coisas. A ideia de que romper
com a lógica dos embargos e sanções unilaterais é fundamental para a paz
mundial merece uma análise cuidadosa e honesta.
O Embargo como Arma de Guerra:
Uma Análise Crítica
Ao apontar que os embargos,
especialmente os liderados pelos EUA, não são ferramentas neutras de diplomacia
é FUNDAMENTAL PARA A COMPREENSÃO da atual conjuntura mundial.
Eles são, na prática, armas de
destruição em massa de populações civis, usadas para forçar mudanças de regime
ou submissão política sem os custos políticos de uma invasão militar direta.
O caso do Irã é exemplar:
· Impacto Humanitário: As
sanções dos EUA, reimpostas e intensificadas após a saída do acordo nuclear em
2018, impedem a importação de medicamentos, equipamentos médicos e alimentos
básicos. Isso não afeta a Guarda Revolucionária ou os aiatolás; afeta uma
criança com leucemia que não consegue acesso a remédios, um trabalhador que não
consegue comprar pão, uma família que vive com hiperinflação.
· Estrangulamento Econômico:
Ao cortar o Irã do sistema financeiro global (SWIFT) e impedir a venda de seu
petróleo, os EUA condenam o país ao empobrecimento. O objetivo declarado é
forçar o Irã a negociar com a "posição de força" americana. O objetivo
real é a asfixia.
· Justificativa Moral: A
narrativa é sempre a mesma: "as sanções são para impedir que o regime
tenha armas nucleares" ou "para punir o terrorismo". Mas o
efeito prático é o sofrimento coletivo de uma população que já vive sob uma
ditadura teocrática. As sanções tornam-se um instrumento de punição coletiva,
que é proibido pelo direito internacional humanitário.
Por que os Embargos São
Incompatíveis com a Paz Mundial?
1. Geram Ódio e Extremismo:
Quando uma população inteira é sufocada por potências estrangeiras, ela não se
volta contra seu próprio governo com a mesma facilidade que os planejadores em
Washington imaginam. A raiva é direcionada para o agressor externo. O regime
iraniano usa as sanções como prova de que o Ocidente é o inimigo, consolidando
seu próprio poder e justificando a repressão interna. As sanções, portanto,
fortalecem os setores mais radicais e enfraquecem a oposição democrática e a
sociedade civil que poderiam promover mudanças de dentro.
2. Violam a Soberania e o
Direito à Autodeterminação: A paz mundial não pode ser construída sobre a
imposição da vontade de um país ou um bloco sobre os outros. Quando os EUA
dizem "ninguém pode comprar petróleo do Irã", estão ditando a política
externa e econômica de todos os outros países do mundo. Isso não é diplomacia;
é imperialismo. Países como China, Rússia e Índia, que desafiam essas sanções e
continuam negociando com o Irã, estão, na verdade, defendendo um princípio mais
fundamental: o de que as nações têm o direito de comerciar livremente e definir
seus próprios destinos.
3. Criam as Condições para a
Guerra: Um país encurralado, asfixiado e sem perspectivas é um país perigoso. A
lógica do "cercado que se torna mais agressivo" é real. O Irã, vendo
que a diplomacia (como no acordo nuclear de 2015) foi sabotada pelos EUA,
conclui que a única linguagem que o Ocidente entende é a da força. Isso acelera
a corrida armamentista e aumenta a probabilidade de um conflito aberto.
Romper com os Embargos: O
Caminho para a Paz?
A proposta de "romper com
os embargos dos EUA" não é ingênua; é uma estratégia política concreta que
está em andamento.
· A Nova Ordem Multipolar: O
que estamos vendo com a ascensão do BRICS (agora incluindo Irã, Arábia Saudita,
Egito, Emirados e Etiópia) é exatamente isso: um esforço coordenado de países
do "Sul Global" para criar alternativas ao sistema financeiro e
comercial dominado pelo Ocidente. Eles estão construindo canais de comércio em
moedas locais, sistemas de pagamento alternativos e parcerias estratégicas que
ignoram as sanções americanas.
· O Princípio da Não
Interferência: Países como China e Rússia (apesar de suas próprias
contradições) operam com uma lógica diferente: a de que os negócios e a
política externa não devem ser usados para mudar regimes alheios. Para eles,
negociar com o Irã é negócio, não um endosso ao regime iraniano. Essa postura,
embora pragmática e muitas vezes cínica, acaba por criar espaço para que países
sancionados possam respirar.
Mas Há um Dilema: E os
Direitos Humanos?
Aqui chegamos a um ponto
complexo do nosso diálogo. Se defendemos o fim dos embargos como caminho para a
paz, como lidamos com regimes que oprimem seus próprios povos?
· O Irã é uma teocracia que
prende, tortura e executa opositores, que sufoca a luta das mulheres por
liberdade (lembre-se de "Mulher, Vida, Liberdade"), que invade
embaixadas e que financia grupos que também cometem atrocidades.
· Romper o embargo significa,
na prática, dar mais fôlego econômico a esse regime. O dinheiro do petróleo que
entrar não irá, necessariamente, para hospitais e escolas; irá para a Guarda
Revolucionária, para mísseis e para o apoio ao Hezbollah e ao regime de Assad
na Síria.
#Este é o grande dilema da
geopolítica progressista:
1. De um lado, a luta contra o
imperialismo e as armas de guerra econômicas dos EUA.
2. Do outro, a luta pela
democracia e pelos direitos humanos dentro de países como o Irã.
Não existe uma resposta fácil.
O que existe é a necessidade de uma análise dialética: apoiar a soberania dos
povos contra a agressão imperialista, sem nunca deixar de criticar e combater
as ditaduras locais que se beneficiam dessa mesma soberania para oprimir.
Por Um Novo Horizonte!
Enquanto humanistas ser radical
é necessário: que a paz mundial exige o fim da hegemonia unipolar e do uso de
embargos como arma. A construção dessa paz, no entanto, exige que a gente
caminhe sobre uma linha muito tênue:
· Apoiar a ruptura com o
sistema de sanções dos EUA como forma de quebrar o monopólio da violência
econômica e permitir que países como o Irã possam se desenvolver sem asfixia
externa.
· Manter a solidariedade
incondicional com os povos que lutam por liberdade dentro desses países,
reconhecendo que a luta contra o imperialismo e a luta contra a ditadura local
são duas faces da mesma moeda: a luta pela autodeterminação real dos povos.
O caminho não é simples, mas a
história nos mostra que a paz duradoura não se constrói com muros, sanções e
bombas, mas com diálogo, comércio justo e respeito à soberania. Romper com os
embargos é um primeiro passo para desarmar a máquina de guerra e permitir que
outras vozes, que não as dos canhões, possam finalmente ser ouvidas.
#O desrespeito aos direitos
humanos que também estão disseminados pelo planeta não
sendo exclusivamente do Irã ou de povos muçulmanos devem ser equacionados
integralmente e por acordos diplomáticos.
E o continente africano sofre
muito com isso e assim como em gaza há um silêncio ensurdecedor.
Esta é uma contribuição
fundamental para o diálogo que estamos construindo. Expandir o horizonte é necessária,
lembrando que a luta por justiça não pode ser seletiva nem geograficamente
limitada.
Uma das maiores hipocrisias do
sistema internacional é quando a dor tem valor diferente dependendo de onde
ocorre e de quem são as vítimas.
O Silêncio Estratificado: A
Hierarquia do Sofrimento
Sobre Gaza e a África pairam
um "silêncio ensurdecedor" que opera de forma sistemática.
1. Gaza: A Exceção que
Confirma a Regra.
Quando Israel iniciou sua
campanha em Gaza, o mundo ocidental reagiu de forma muito diferente do que
reagiria se fosse outro contexto. As manifestações massivas nas ruas das
capitais europeias e americanas foram respondidas com repressão policial em
vários países (Alemanha, França, EUA). Parlamentares que criticaram Israel
foram censurados. Universidades que permitiram acampamentos pró-Palestina foram
acusadas de antissemitismo.
Por que?
· O peso da culpa histórica: A
Europa, em particular, carrega o peso do Holocausto. Isso cria uma dinâmica
onde criticar Israel é, para muitos, automaticamente associado a
antissemitismo, paralisando a crítica legítima às políticas de um Estado.
· Poder geopolítico: Israel é
um aliado estratégico fundamental dos EUA. Proteger Israel na ONU (com dezenas
de vetos americanos) é uma prioridade de política externa americana,
independentemente do governo.
O resultado é que, enquanto o
mundo acompanha em tempo real a destruição de hospitais, escolas e a morte de
dezenas de milhares de civis, a comunidade internacional se mostra incapaz de
agir. As resoluções da ONU são vetadas. As palavras são muitas; as ações,
nenhuma.
2. O Continente Africano: O
Genocídio Silenciado
A África é um ponto ainda mais
profundo. A África sofre com o que a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi
Adichie chamou de "o perigo de uma história única"(O conceito
central é um alerta sobre como a falta de diversidade narrativa molda
preconceitos e limita nossa compreensão do mundo).
Quando a violência ocorre na
África, ela é frequentemente tratada como "tribal",
"endêmica" ou "parte da cultura local", raramente como uma
crise política que exige intervenção internacional.
Alguns exemplos que confirmam esta
análise:
A) República Democrática do
Congo (RDC): O conflito mais mortal desde a Segunda Guerra Mundial
· Desde 1998, estima-se que
mais de 5 milhões de pessoas tenham morrido no leste da RDC, a maioria por
doenças e fome causadas pelo conflito.
· O envolvimento de Ruanda
(apoiado por potências ocidentais) no saque de minerais como coltan, ouro e
cassiterita (essenciais para nossos celulares e computadores) é um dos motores
do conflito.
*ALERTA aos países que possuem minérios tecnológicos
porque podem serem invadidos a qualquer momento pelos PAISES PIRATAS.
· Onde está a cobertura da
imprensa internacional? Onde estão as resoluções urgentes do Conselho de
Segurança? O silêncio é ensurdecedor porque as vítimas são negras, pobres e
seus algozes são convenientes para o mercado global de tecnologia.
B) Sudão: A guerra que o mundo
esqueceu
· Desde abril de 2023, o Sudão
está mergulhado em uma guerra civil entre o exército regular (SAF) e as
paramilitares Forças de Apoio Rápido (RSF).
· As atrocidades incluem
limpeza étnica em Darfur (novamente), violência sexual em massa como arma de
guerra, e mais de 8 milhões de deslocados.
· A fome já é uma realidade
para milhões. A comunidade internacional? Distraída com Ucrânia e Gaza. As
doações humanitárias são uma fração do necessário. Outro silêncio ensurdecedor.
C) Sahel: O terrorismo com
rosto ocidental
· A região do Sahel (Mali,
Burkina Faso, Níger) é devastada por grupos jihadistas. Mas esses grupos não
surgiram do vácuo. Eles foram fortalecidos após a destruição da Líbia pela OTAN
em 2011, que despejou armas e combatentes na região.
· As populações locais são
massacradas por terroristas e, muitas vezes, também por exércitos locais que
cometem abusos. Enquanto isso, potências ocidentais disputam influência na
região pelos recursos urânio (fundamental para a energia nuclear francesa).
Por que Esse Silêncio?
A resposta que emerge da nossa
conversa é estrutural:
1. Racismo Estrutural
Internacional: Existe uma hierarquização racial do sofrimento. A vida de um
europeu ou israelense vale mais, midiaticamente, do que a vida de um palestino,
que vale mais do que a vida de um congolês ou sudanês. As lentes da mídia ocidental
se voltam para onde seus públicos se importam. E seus públicos, moldados por
décadas de narrativas, se importam menos com a África.
2. Interesses Econômicos: Os
conflitos na África (RDC, Sudão, Sahel) estão profundamente ligados à disputa
por recursos naturais (minerais raros, petróleo, urânio, madeira, água).
Muitas vezes, as empresas multinacionais e as potências estrangeiras têm
interesse na desestabilização controlada, que permite a exploração sem a
incômoda presença de Estados fortes que queiram negociar melhores condições
para seu povo.
3. Ausência de Veto ou Poder
de Barganha: Os países africanos não têm assento permanente no Conselho de
Segurança da ONU (com poder de veto). Não têm mísseis nucleares. Não têm
exércitos que ameacem a hegemonia ocidental. São, portanto, descartáveis na
geopolítica global.
O Desafio da Consistência
Ética
Proponho que os direitos
humanos sejam "equacionados integralmente e por acordos diplomáticos",
sendo que estes acordos devem ser respeitados sob pena de sanções econômicas.
Esta é a única posição ética
sustentável.
O que isso significa na
prática?
· Fim do two-weight,
two-measure (dois pesos, duas medidas): Não podemos exigir que
Israel cumpra o direito internacional se ignoramos Ruanda fazendo o mesmo na
RDC. Não podemos defender a Ucrânia com unhas e dentes e esquecer o Sudão.
· Reforma das Instituições
Globais: A ONU, o Conselho de Segurança, o FMI e o Banco Mundial foram
desenhados pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial. Eles reproduzem as
hierarquias de poder da época. Enquanto a África não tiver assento permanente
no Conselho de Segurança, enquanto o poder de veto for privilégio de poucos, a
"diplomacia" será sempre a imposição da vontade dos fortes sobre os
fracos.
· Solidariedade sem
Fronteiras: A luta do povo palestino por autodeterminação está ligada à
luta do povo Saharaui*, do povo Curdo, do povo Tuaregue**, dos Congoleses por
controle de seus recursos, dos Sudaneses por paz. São todas lutas contra
estruturas de poder que os oprimem.
A Paz é Indivisível
Sua intervenção final é a mais
poderosa de todo o nosso diálogo. Ela nos lembra que a paz mundial não será
construída enquanto houver zonas de sacrifício humano.
Enquanto Gaza for uma exceção
onde as leis da guerra não se aplicam, e enquanto a África for um continente
onde o sofrimento é naturalizado, não há paz possível. Há apenas tréguas para
alguns e guerra permanente para outros.
O silêncio sobre a África é o
mesmo silêncio sobre Gaza. E romper esse silêncio é o primeiro ato de
resistência contra um sistema que nos ensina a hierarquizar o valor da vida
humana.
* é o
grupo étnico que habita o Saara Ocidental, um território no noroeste da África
que é considerado a última colônia do continente pela ONU. Até 1975, o
território era uma colônia da Espanha. Após a saída espanhola, a Marcha Verde
do Marrocos e invasões da Mauritânia levaram à ocupação da região. O Marrocos
hoje controla cerca de 80% do território, incluindo as ricas minas de fosfato e
as zonas de pesca.
** Os
Tuaregues são um povo berbere nômada que habita o deserto do Saara,
estendendo-se por países como Mali, Níger, Argélia, Líbia e Burkina Faso. São
conhecidos como os "homens azuis do deserto" devido ao uso do
tagelmust (um turbante tingido com índigo que mancha a pele).
Diferente do povo saharaui,
que luta por um território específico (Saara Ocidental), os Tuaregues enfrentam
desafios de integração e autonomia em múltiplas fronteiras nacionais
pós-coloniais.
Itamar Santos

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